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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sobre o amor e o ódio

Amor e ódio são sentimentos essencialmente egoístas. Sua natureza, no entanto, é absolutamente distinta: enquanto o amor é degenerativo e autodestrutivo, o ódio prima pela preservação do indivíduo. Aquele que ama deseja morrer antes do ente amado, para não sofrer a perda deste. Aquele que odeia, por outro lado, deseja viver o bastante para poder desfrutar a morte do objeto de seu ódio. Disso concluo que o ódio é preferível ao amor.

Entretanto a avaliação a respeito de tais sentimentos pode e deve ser estendida, tendo em vista que há, para além do tradicional entendimento do amor como afeto sincero de um indivíduo específico por outro indivíduo específico, diversas aplicações para a palavra.

Eis o sentimento amoroso em sua forma pura e autêntica: o amor-próprio. É ele que nos alimenta e nos movimenta, que nos propulsiona, que norteia nosso senso de autopreservação; é ele que nos conduz à superação das deficiências e ao aperfeiçoamento das competências; também é ele que, para garantir nossa integridade individual, produz sentimentos destrutivos - o ódio, por exemplo - acerca de terceiros que nos são de algum modo nocivos.

Há também outra categoria de amor que merece nota: o amor ao próximo, excrescência cancerosa tão comum àqueles incapazes de amar a si, incapazes de elevar-se, incapazes de impor sua vontade ao mundo que os rodeia. Essa modalidade de amor busca, ainda que disfarçadamente, nivelar todas as potências pessoais, e para isso tolhe - seja através de credos ou ideologias - as individualidades e converte o conjunto humano em uma massa homogênea apodrecida.

Por fim, tendo em mente o que foi evidenciado anteriormente, constato que o amor ao próximo é a máxima expressão egoísta do derrotado que não aceita seu solapamento. Sendo assim, o ódio se revela uma ferramenta eficaz para combater esse amor que, na realidade, trata-se de um antiamor, um inimigo velado da espécie humana.



Paulo Cioli, 29 de dezembro de 2016.

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