Páginas

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sobre o amor e o ódio

Amor e ódio são sentimentos essencialmente egoístas. Sua natureza, no entanto, é absolutamente distinta: enquanto o amor é degenerativo e autodestrutivo, o ódio prima pela preservação do indivíduo. Aquele que ama deseja morrer antes do ente amado, para não sofrer a perda deste. Aquele que odeia, por outro lado, deseja viver o bastante para poder desfrutar a morte do objeto de seu ódio. Disso concluo que o ódio é preferível ao amor.

Entretanto a avaliação a respeito de tais sentimentos pode e deve ser estendida, tendo em vista que há, para além do tradicional entendimento do amor como afeto sincero de um indivíduo específico por outro indivíduo específico, diversas aplicações para a palavra.

Eis o sentimento amoroso em sua forma pura e autêntica: o amor-próprio. É ele que nos alimenta e nos movimenta, que nos propulsiona, que norteia nosso senso de autopreservação; é ele que nos conduz à superação das deficiências e ao aperfeiçoamento das competências; também é ele que, para garantir nossa integridade individual, produz sentimentos destrutivos - o ódio, por exemplo - acerca de terceiros que nos são de algum modo nocivos.

Há também outra categoria de amor que merece nota: o amor ao próximo, excrescência cancerosa tão comum àqueles incapazes de amar a si, incapazes de elevar-se, incapazes de impor sua vontade ao mundo que os rodeia. Essa modalidade de amor busca, ainda que disfarçadamente, nivelar todas as potências pessoais, e para isso tolhe - seja através de credos ou ideologias - as individualidades e converte o conjunto humano em uma massa homogênea apodrecida.

Por fim, tendo em mente o que foi evidenciado anteriormente, constato que o amor ao próximo é a máxima expressão egoísta do derrotado que não aceita seu solapamento. Sendo assim, o ódio se revela uma ferramenta eficaz para combater esse amor que, na realidade, trata-se de um antiamor, um inimigo velado da espécie humana.



Paulo Cioli, 29 de dezembro de 2016.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Heróis



Quando eu era criança, a minha avó sempre me contava uma história, sobre uma menina rechonchuda, em um bairro qualquer, que estava toda amuada, esperando o irmão para brincar. O irmão mais velho, sempre ocupado e sem paciência para aturar a irmã caçula, já tinha desculpas prontas para nunca estar disponível, mas naquele dia em particular ele saíra para buscar a TV preto e branco para ver a semifinal da Copa do Mundo. Era uma data e tanto. O País estava pronto e esperançoso. Anos aguardando um título que não chegava, mas naquele ano seria diferente, o caneco viria. 

A menina levantou do sofá, toda serelepe, quando o irmão apontou no topo da ladeira, com a TV enorme, quase o cobrindo, balançando em cima de um carrinho de mão que pedira emprestado ao vizinho. O irmão colocou a TV no lugar e sorriu, rosto vermelho e triunfante. Aquele era o dia e tudo valeria à pena.

Mas não foi bem assim. O Brasil perdeu e mais um título foi embora. A menina viu que o irmão colocara as mãos no rosto para não mostrar que se rendera à tristeza. Ele chorava copiosamente. Ela se aproximou meio curiosa. Não entendia o porquê de tanto esforço para buscar a TV e a tamanha tristeza, mas não conseguia ver o seu irmão triste. O abraçou e, de perto, ainda agarrada ao seu pescoço, olhou para a TV e é como se tudo fizesse sentido. A partir dali ela começou a ver que o futebol era como a paixão, que traz felicidade, mas também pode ferir. Ali ela percebeu que a dor e o amor se intercalam naqueles 90 minutos que o seu time está dentro do campo. Ali ela entendeu o seu irmão. Ali ela começou a amar o futebol , onde todos os esforços valem à pena. Onde todos podem ser heróis ou vilões, dependendo do resultado, onde ainda é possível sonhar e esquecer os problemas, viver momentos que, pelo menos naquele espaço em particular, se tornam eternos. Essa criança e tantas outras, cada uma a seu modo, carregam no sangue essa paixão pelo esporte. 

A menina só não aprendeu que certas dores são profundas demais, machucam a carne como poucas. Que sonhos podem se despedaçar antes mesmo de começarem a ganhar corpo.
Esperanças interrompidas em um dia aleatório, mas que agora dificilmente será esquecido, por mais que tudo se torne reles, com a velocidade absurda da informação, certos fatos teimam em ficar, para te mostrar a brevidade da existência.

Muitos dirão que foi a vontade de Deus. Outros que há uma explicação para tudo, que a vida não presta. Dizeres passionais são comuns em momentos de tragédia, mas quando aquelas pessoas entraram no avião rumo à Colômbia, só queriam o instante mágico, onde a alegria transborda e tudo se torna especial. 

O destino pode ter aprontando mais uma das suas, mas os guerreiros da Chapecoense jamais serão esquecidos. Tornaram-se heróis, os heróis de novas histórias que ainda serão contadas. 


Paula Bezerra.






segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sentenças agudas

Matéria: tudo o que há, considerando-se que o imaterial, enquanto coisa não comprovada, simplesmente não pode existir.

O conhecimento de que a matéria abarca toda a universalidade das coisas nos explicita que os impulsos vitais são nosso único e poderoso motor - e que a razão da vida é a própria vida. Portanto, qualquer tentativa de dar à existência propósito transcendental deve ser violentamente repelida.

Espírito: delírio da carne apodrecida, que busca abstrair-se de si mesma e, calcada na concepção de propósitos impalpáveis, prosperar em um mundo etéreo, insólito.

A crença em um plano alheio a este é a desconsideração da imanência da matéria - e, por extensão, do mundo. Conceber valores externos àqueles impostos pelo corpo é algo tão estapafúrdio que, em comparação com a irracionalidade, faz esta assemelhar-se à mais esclarecida das filosofias.

Viver: aceitar o império da carne sobre o espírito, da matéria sobre a ideia, da hostilidade sobre a candura; entender que a plenitude reside em saber amar a própria existência e fazer das dores motivo de alegria.

A erroneamente pressuposta heterogeneidade do espírito e a infantilmente autodeclarada pluralidade das ideias se esfacelam quando em contato com a ortodoxia da carne, da crua carne, da furiosa carne, da violenta carne. A matéria viva oblitera o que é espiritual e ideológico.

Utopia: estupidez a que se rendem os fracos, os degenerados, os desprovidos de amor à vida, pois os seres plenos não necessitam de espírito e ideologia, porquanto eles vivem, e isto lhes basta.

O mundo ilusório é o subterfúgio daqueles que não suportam a imperiosa factualidade das explosões vitais do mundo material. A imaterialidade é a mentira dos derrotados, dos que, por resultado de sua impotência, são incapazes de resistir à plena pureza dos que amam a vida tal qual ela é.

Felicidade: aglomeração de todos as nossas paixões, de tudo aquilo que nos faz verdadeiramente bem e que nos eleva enquanto seres competitivos e ávidos por mais poder.

Ser feliz é viver plenamente e rejeitar tudo o que não se pode materializar, pois que a doutrina da carne é nosso único axioma, nossa inapelável máxima, nossa universal e irrefutável verdade.



Paulo Cioli, 28 de novembro de 2016.

Soneto de Paulo Cioli ao EP "Condôminos", de Pedro Gama

Se a incerteza acerca da tua sorte
for à noite à tua porta bater,
não procure resposta num recorte,
anote o mote: pergunte a você.

No décimo quinto poste da via
topei co'um bebum que, a rodopiar,
refletiu meus anseios de alforria,
como espelho do que ainda virá.

De volta à casa, busquei meus retratos,
os fitei, relembrei meus próprios atos,
sentei à minha mesa e percebi:

não somos mais que meros viajantes,
condôminos somente por instantes
do corpo que nos permite existir.



De: Paulo Cioli



Link do vídeo com o soneto declamado por Pedro Gama e Jéssica Lôro: https://www.youtube.com/watch?v=xUN9asfB6NU

Link do EP: https://www.youtube.com/watch?v=JSnujfPVwSY

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um homem


De olhos fundos e ar grave e ensimesmado,
um homem leva o peso do futuro
- sombrio como o ventre mais escuro -
nas costas que sustentam seu passado.

Talvez, sabendo ser mero monturo
aquilo que lhe aguarda do outro lado,
evite, como um clérigo calado,
espiar o que existe além do muro.

Caminha, como que mirando o nada,
sob o bruxulear da madrugada,
pensando no rapaz que foi outrora,

rapaz que, por um crime ou por desgosto,
minguou como minguou o ardor do rosto
e agora no seu corpo já não mora.



Aquarela: Roberto Velasco
Soneto: Paulo Cioli

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ele ...




Não sei se escolhemos nos envolver ou se o destino se encarregou disso e apenas nos deixamos levar, impassíveis, porque era bom estar juntos, sem rótulos, sem direção. Não sei se houve algum tipo de pacto que um começaria a dormir na casa do outro, sentar para ver filmes, ou apenas estar lado a lado, no mais calmo, aconchegante e descompromissado silêncio. Não sei como, por que ou quando, mas o fato é que ficamos e estávamos. Era bom. E então decidimos apenas continuar.

E como nunca combinamos nada em nossa rotina, não marcamos local ou hora para comemorar seis meses de nossa rotina não-convencional, mas que carregava uma certa coerência, dentro de nossa perspectiva. Não que fôssemos iguais, éramos tão diferentes. Fogo e gelo. Eu queria tanto, ele só queria continuar seu caminho, como uma onda. Não concordávamos nessa questão e em tantas outras, mas apenas a sua presença me bastava. Era um pacto sem laços ou documentos.  

E ainda sem saber de muito ou quase nada, ele me falou, naquela manhã, enquanto se vestia no banheiro que nos veríamos para comemora os nossos seis meses.
- Onde? Quando? – perguntei curiosa.
- Na hora saberá. – ele mal me olhou para responder, enquanto pegava sua mochila e saía apressado pela porta. Ele sequer tocara nas torradas parcialmente queimadas e o suco que preparara com tanta boa vontade. Suspirei. Era um cara e tanto. O odiava e o queria ao mesmo tempo. Sentimentos conflitantes que me tomavam quase diariamente desde que o conheci. Ele libertava o meu melhor e o meu pior sem muito esforço.

Ele sabia que eu era curiosa e me deixou até o final da tarde daquele dia observando o meu celular como uma adolescente tola. Era insuportável pensar em mil possibilidades do que faríamos ou sequer se isso de fato aconteceria. Não seria a primeira vez que inventaria algo para fugir de um compromisso, e quando quase me rendia a essa dolorosa possibilidade, surgiu uma mensagem no celular. O meu coração disparou. Era tão ridículo me sentir daquele jeito. Fiz-me de desapegada e me obriguei a aguardar pelo menos cinco minutos antes de ler o que martelava a minha mente. O meu amor próprio precisava disso. Tempo cronometrado, abri meu celular rapidamente e li apenas:
Vá até o pub da esquina e me avise quando chegar lá.”

Cocei a cabeça e imaginei que ele estaria lá me aguardando, mas se fosse esse o caso, por que me pediu para avisá-lo quando chegasse? Cogitei em ligar, mas depois desisti. Faria papel de boba. Apenas peguei a bolsa e o casaco e rumei para o local apontado.

O pub estava parcialmente lotado. Era uma quase noite de Sexta. O que não faltava eram clientes loucos por álcool e momentos de diversão. Observei o perímetro e não o vi. Ainda confusa pelo desenrolar da primeira mensagem, apenas peguei o celular e digitei que estava no local e aguardei. Segundos depois, uma nova mensagem:
Vamos brincar um pouco?
Sorri sem jeito. O que estava acontecendo? Pensei por alguns segundos e respondi com outra pergunta:
Do que está falando?
Mais alguns segundos de espera:
Quero que sente na mesa mais afastada e me avise quando fizer isso.

Estava completamente confusa, mas também curiosa. Na verdade, a minha curiosidade crescia a cada instante.

Observei uma mesa ao fundo, quase à meia-luz e me acomodei. Respirei fundo e avisei que tinha atendido o seu pedido. Coloquei o celular em cima da mesa e cruzei as mãos no colo. A próxima mensagem demorou um pouco e quando o aparelho vibrou, o peguei sem demora.
Você tem uma escolha a fazer: Pode continuar ou sair e ir embora para casa, mas se ficar terá que fazer o que eu mandar. O que me diz?
Que loucura é essa? – pensei. – Será que clonaram o meu telefone?

Brinquei com o recipiente de sal por alguns minutos pesando mil possibilidades, mas queria saber em qual caminho aquilo daria. Então apenas respondi que ficaria e fechei os olhos, tentando controlar a minha respiração e a excitação que começava a me tomar.
Os segundos e minutos quase viraram uma eternidade. A próxima mensagem não chegava. Se aquilo fosse uma brincadeira e ele aparecesse na minha frente o mataria, isso era um fato e não haveria misericórdia.

E a tão aguardada mensagem enfim apareceu. Enquanto lia, arregalei os olhos ao tentar assimilar cada palavra.
Quero que tire a calcinha e se masturbe exatamente onde está. Após gozar, quero que deixe a calcinha na cadeira ao lado, levante-se e vá para a sua casa.

Senti o meu rosto queimar. Parecia que todos no pub me olhavam e sabiam exatamente o que me havia sido pedido. Eu não podia fazer aquilo. Era absurdo, mas algo dentro de mim queria que fizesse. Apertei os meus dedos, ainda cruzados no colo. Senti uma pontada de dor, pela pressão exagerada. Fechei os olhos e imaginei a cena, parecia a coisa mais maluca e ao mesmo tempo a mais erótica.
Fiz o gesto para levantar duas vezes, mas desisti. Eu queria fazer aquilo, mesmo sabendo que ele não estava vendo, mas apenas tinha certeza de que ele sabia que atenderia o seu pedido. E então levantei a minha saia e comecei a retirar a minha calcinha, lentamente, para não fazer alarde ou chamar atenções desnecessárias.
Enquanto me despia, da peça íntima e do bom senso, ouvia o meu lado racional e amedrontado gritando para que parasse, mas era mais forte. Iria fazer o que ele quisesse, não retrocederia. Senti a renda deslizar pelas minhas pernas trêmulas e desloquei o meu corpo até que a conseguisse pegar com os meus dedos da mão direita. Depositei-a ao meu lado e preparei-me para o movimento seguinte. Timidamente introduzi o meu indicador dentro da minha vagina e comecei a brincar com o meu clitóris. Estava tão nervosa e com medo de ser descoberta que demorou um pouco até que começasse a sentir prazer com a estimulação. O calor começou a tomar conta do meu corpo e minha respiração aumentava na mesma intensidade com que o meu indicador e o dedo médio exploravam a minha intimidade. Era muito excitante saber que estava me masturbando no meio de tantas pessoas e ao mesmo tempo, suas expressões distantes, alheias ao prazer que estava sentindo, começaram a me dar a leveza e a permissão para que continuasse, até que fechei as pernas e os olhos, segurando o grito e chegando ao clímax sem reservas, dúvidas ou culpa. Apenas fiquei ali, curtindo o momento, como se nada mais houvesse ao meu redor, apenas o vazio do prazer saciado, apenas um sorriso bobo que invadiu a minha face.

Após me concentrar por certo tempo em uma mulher que dava goles curtos e monótonos em um copo de cerveja, peguei guardanapos e comecei a me limpar, ainda com bastante cuidado para não fazer movimentos bruscos. Quando tive a certeza de que estava apta a deixar o local, levantei-me e saí, com passos largos e deixando para trás a minha calcinha verde de renda. Balancei a cabeça ao imaginar quem seria o ou a escolhida para encontrar o meu presente.

Peguei o primeiro táxi que passou e entrei rapidamente em casa. Um silêncio sepulcral cobria todo o espaço. Procurei por ele, mas não havia sinal de sua presença. Dei uma olhada rápida para o meu celular, procurando por novas mensagens, mas nada. Caminhei até o corredor e notei que a porta do meu quarto estava fechada. Isso não era normal. Bingo. O que me aguardada estava naquele cômodo.

Coloquei a mão na maçaneta e hesitei. O que ele queria com tudo aquilo? Balancei a cabeça e abri a porta em um impulso. Nada havia de anormal desde que saíra pela manhã, apenas a cama estava metodicamente arrumada e havia um tecido em cima dela junto a um pedaço de papel. E no papel apenas uma frase em caligrafia simples:
Tire a roupa, use o tecido como uma venda e deite-se na cama.

Cocei a cabeça e chequei o perímetro do quarto. Onde ele estaria?
Toquei o tecido preto com a ponta dos dedos. Era agradável, parecia cetim.
Desisti de tentar encontrá-lo e comecei a despir-me lentamente. A blusa branca, a saia preta, o sutiã verde de renda, órfão da sua peça complementar intencionalmente esquecida no pub e o sapato preto foram ao chão sem muita cerimônia. Sentei-me na cama e amarrei o tecido, tirando a minha visão e me acomodei no travesseiro, apenas aguardando. Sentia minha pulsação forte, vibrante e o movimento do meu peito, no ritmo de sobe e desce de quem anseia por algo. Estava completamente excitada. Todo o processo, o mistério, a masturbação em local público e o fato de não poder ver o que acontecia ao meu redor destruíram o meu autocontrole.

Escutei passos próximos da cama e mordi o lábio. Não podia ver, mas podia sentir que era ele, não havia como estar enganada. O fato de estar intencionalmente privada de um dos sentidos aguçava os demais. Era algo inexplicável, mas era forte, muito forte.

Ele tocou os meus pés com as pontas dos dedos e começou a subir lentamente a minha perna, percorrendo a minha pele. Arqueei o corpo. Estava completamente molhada. Cada pedaço de mim clamava por mais. Tremia a cada centímetro explorado. Queria levantar e tirar a venda e gemi baixo quando os seus lábios quentes se aproximaram do meu ouvido e ordenaram que não me mexesse, que apenas aproveitasse o momento.
Senti que ele estava na cama. Suas mãos afastaram as minhas pernas e as arquearam. Ele introduziu os dedos dentro de mim, até que deu lugar a sua língua, e começou a movimentá-la, imitando os movimentos da penetração enquanto brincava com o meu clitóris com o polegar. Gritei alto, estava pegando fogo. O queria como nunca antes. Gozei sem demora e tremi ofegante. Ele continuava me sugando e após alguns segundos, sussurrou no meu ouvido para que ficasse de quatro, o que prontamente atendi. Na situação que me encontrava, faria o que ele pedisse e sem questionar. Ele se aproximou de mim e puxou o meu cabelo de leve enquanto me penetrava, alternando a frequência, conforme me possuía. Aquele choque me levou a gritar e gemer. Parecia-me impossível sentir tanto prazer, mas não era. Era bom, muito bom. Ele se aproximou do meu rosto e começou a sussurrar frases sacanas, enquanto mordia de leve o meu pescoço. Quando estava quase gozando novamente, ele me virou de frente e colocou as minhas pernas nos seus ombros, voltando a me penetrar, dessa vez com muita intensidade, até que o seu gemido rouco de prazer invadiu o quarto. Eu já estava entregue aquele momento, exausta após ter todos os meus anseios e desejos saciados. Ele tirou o tecido que cobria a minha visão e pude olhar dentro dos seus olhos. O que mais gostava nele era o seu olhar. Era profundo, forte e, apesar de tudo, doce. Eram olhos gentis, aconchegantes. Gostava de me perder neles. Davam uma sensação de paz, por mais que o seu dono por vezes clamasse pelo caos...



M.C










sábado, 17 de setembro de 2016

A Excursão





A Excursão.

Para os mortais cujas vidas se assemelham a um filme, mas não qualquer filme, o enredo seria quase uma mistura de drama com comédia pastelão das mais esdrúxulas, nada é tão simples.
Um final de semana nunca será apenas um final de semana. Uma excursão nunca será apenas uma excursão e conhecer um cara nunca, bem,...  Você entendeu.
Eu não queria ir àquela excursão. As provas estavam chegando e mal havia terminado a metade dos trabalhos e o final do semestre estava muito próximo. Já conhecia todos os pontos de Caldas Novas, conhecia até as formigas que habitavam a cidade pelo nome. Quem mora em Brasília sabe que o destino mais comum de quem anseia por alguma diversão em um local que possua água, opta por Caldas.
Mas não dá para negar o pedido da Ana. Ela sabe ser convincente, e entre ficar duas horas de orelha quente no celular e aceitar o uniforme da parceira de viagens perfeita, optei pelo segundo. Odeio telefones. E explicações. E discutir relações.
Então, após um dia treinando o meu melhor sorriso, estávamos no ônibus, a caminho de mais um final de semana monótono. As pessoas que nos acompanhavam na excursão eram interessantes, tirando as piadas horrorosas, o cheiro enjoativo de cerveja misturada com suor e as conversas banais sobre roupas, sapatos, carros, locais preferidos de baladas e das cento e cinquenta vezes – sim, eu contei – que pronunciaram “véi”. Queria mesmo conversar sobre futebol, mas todas as vezes que tentei falar sobre isso com um homem, ou ele mostrou-se mais preocupado com o tamanho do meu decote ou em me olhar como se fosse uma alienígena recém jogada da nave. Um porre poderia ser uma boa alternativa, mas não sou muito de beber, então continuei representando e apenas assenti quando comentaram efusivamente que a fulana que largou o fulano era uma vaca. Sempre soube me sair bem da monotonia das relações humanas. Cale, sorria e concorde. É rápido, limpo e seguro. Um manual de sobrevivência muito útil.
Então notei alguém próximo ao local onde estávamos e pensei que nem tudo estava perdido. Como a Ana já estava na fase pré troca de saliva com um dos caras que misturavam cerveja com suor, afastei-me da minha amiga, que já havia se esquecido completamente da pessoa que praticamente fizera mandinga para levar na excursão e dei alguns passos para mais perto do homem que despertou a minha curiosidade.
Ele era até bonito, mas havia um problema. Sou péssima para flertar. Fico com um misto de tremedeira crônica e a face vermelha. É uma cena realmente assustadora.
Não sei como, mas ele percebeu a minha tentativa patética de chamar sua atenção e acabamos trocando alguns olhares. Segundos depois, caminhou até onde eu estava e apresentou-se sem me tocar abaixo da linha da cintura ou perto dos meus seios. Ponto para o rapaz.
Com alguns minutos de diálogo, descobri que o seu nome era Flávio, professor de curso, solteiro – Aleluia, universo - e morava no outro extremo de Brasília. Sem problema, afinal tudo fica longe na capital federal. E a conversa fluiu. Logo nem me lembrava dos que estavam no ônibus. Como é bom conversar com pessoas que sabem debater sobre diversos temas.
Quando chegamos ao hotel, o pessoal da excursão combinou de tomar banho de piscina. Era chegar aos quartos, trocar de roupa e piscina. Hábito básico dos brasilienses. A abstinência de água causa isso. Só de mencionar piscina, já estamos tirando a roupa e colocando os trajes de banho, mesmo que já passasse das onze da noite e o vento estivesse cortante.
Já na piscina conversamos mais. Era agradável conversar com ele. Tinha a voz calma e parecia gostar de me ouvir. Não ouvir apenas por conveniência ou para descolar uma transa no final da noite. Ele realmente prestava atenção no que eu falava.
Ana já estava aos beijos com o cara na outra piscina. Essa é a minha amiga. Nada de perder tempo. Esperava não ter que dormir no corredor depois.
No dia seguinte, estava com sono pelas poucas horas de descanso, mas não dormira no corredor, para o meu alívio. Marquei de me encontrar com o Flávio para mais piscina. Sim, a obsessão é grande. Eu tenho pavor de água, sendo bem sincera, mas como as piscinas eram rasas, dava para conviver sem surtar. E eu queria muito vê-lo novamente.
E, como combinado, lá estávamos na piscina mais segura do clube conversando amenidades, quando enfim ele me beijou. “Por que demorou tanto?”, me peguei pensando enquanto apreciava a sua língua passeando dentro da minha boca. Será que não tinha dado para perceber que eu jamais tomaria a iniciativa? Homens e seu timing inexplicável. Ou querem tirar a sua roupa na primeira hora ou demoram séculos, como se estivessem lidando com uma boneca de porcelana. Obviamente pensei em tudo isso enquanto nos beijávamos. A minha mente é digna de estudo. Devaneios sem fim em qualquer situação.
Ele não pegou no meu traseiro durante o beijo, foi até bem comportado. Afinal, tinha uma plateia considerável aproveitando a mesma piscina, mas sabia aonde aquilo iria dar. Após muitos beijos, Flávio me chamou para subir um pouco. Precisava pegar algo no quarto. Claro que precisava.
No elevador, um silêncio cobria o espaço. Havia um casal de idosos ao nosso lado. Elevadores já são os ambientes mais constrangedores existentes no universo e, àquele momento, era impossível fugir dessa constatação. Estava de costas para ele, mas sabia que me olhava e o que queria. Acho que se colocasse gelo no meu rosto, derreteria em segundos. Tímidos e sua inabilidade em esconder sentimentos.
Quando chegamos ao meu andar, estava no 10º. e ele no 16º., comentei que iria ao meu quarto e nos encontraríamos depois.
- Não íamos passar no meu quarto primeiro? – ele falou.
 Aí vi que era oficial. Ele queria. Eu também queria. Então apenas dei meia volta, entrei de novo no elevador e, de comum acordo, seguimos para o décimo sexto andar. Pelas nossas expressões, provavelmente foi a vez do casal de idosos ficar sem graça no curto espaço de tempo até o nosso destino.
O quarto onde ele estava hospedado ficava na metade do corredor, mas mal chegamos ao início e já estávamos nos beijando. Era bom, quente e sua língua percorria todos os espaços da minha boca da forma mais erótica possível. Até esqueci da minha timidez. Se alguém passou ao nosso lado sequer notei. A minha única preocupação era em chegar logo àquele bendito quarto.
Flávio abriu a porta e entramos. O meu coração parecia que ia sair pela boca e notei que ele também estava do mesmo jeito, ao observar a proeminência em sua bermuda.
O quarto estava uma bagunça. Em menos de 24 horas, Flávio e seu amigo já haviam criado um ambiente pós-guerra no lugar. Mas aquilo não me interessava, não ali.
Fui até a janela, enquanto ele trancava a porta e olhei a vista. Era uma bela vista. Ele tinha ficado com o melhor ângulo do hotel. Quase cheguei a comentar sobre a injustiça, mas não consegui formular a frase. Flávio abraçou a minha cintura por trás e afastou os meus cabelos, mordendo o meu pescoço de leve. Enlouqueço quando fazem isso comigo. O toque e a forma como se toca é tudo. Eram dedos gentis e a alternância entre eles e sua língua me tiraram completamente do tino. Ele não deixou que me virasse e começou a me despir, ainda de costas. Ele tirou o sutiã do meu biquíni e tocou com o indicador e o polegar no meu mamilo. Gemi. Estava completamente entregue. Ele comandaria aquele show.
Flávio pegou a minha mão direita e colocou dentro da sua bermuda. Não me enganei quando olhei de relance ao entrarmos no quarto. Ele estava muito pronto. O estimulei o suficiente enquanto ele chupava o meu pescoço e tirava o meu short e a calcinha do biquíni.
Percebi que o Flávio estava quase lá e parei de estimulá-lo. Ele puxou os meus cabelos de leve e introduziu sua mão lá embaixo, estimulando o meu clitóris. Gritei. Seus movimentos alternavam entre lentos e rápidos. Aquele choque estava me enlouquecendo. Sussurrei em seu ouvido que não suportava mais e ele me virou de frente. Agradeci por enfim ele estar disposto a me libertar da tortura, mas logo percebi que estava errada. Flávio se abaixou, colocou a minha perna direita no seu ombro e começou a me lamber e a chupar o meu clitóris. Estava queimando de excitação. Sentia-me quebrando em pedaços e esqueci até dos vizinhos. Gemia muito e nem lembro em qual volume.
Quando gozei, Flávio parou, ficou de pé, tirou a bermuda e me olhou de uma forma que dispensava palavras. Ainda estava em brasas, mas ele merecia o seu momento de prazer. Ajoelhei-me e comecei a fazer a minha parte, lambendo, apertando e chupando de todas as formas possíveis. Não demorou muito e ele me puxou, me guiando rapidamente até a cama. Acho que também estava excitado demais para perder mais tempo com preliminares.
Bati a cabeça em algo duro quando me joguei nos travesseiros, e entre todas as tralhas jogadas na cama desfeita, Flávio me penetrou com muita fome. Não demorou muito para que eu gozasse novamente. Ele logo me acompanhou e gemeu de prazer. Foi muito intenso e totalmente erótico. Não sou o tipo de pessoa que vai para a cama com um quase desconhecido e ainda mais no primeiro encontro, mas foi uma das melhores experiências que já tive. O cheiro no ar demonstrava o que havia acontecido ali. Foi completamente carnal. Ele sabia como tratar uma mulher. Flávio era sexy, inteligente e gentil, pelo menos era o que eu achava, até o final daquela tarde, enquanto descansávamos abraçados na bagunça dos lençóis do quarto de hotel. Logo descobriria que não poderia estar mais enganada sobre o meu novo colega.

Nos despedimos e voltei para o quarto. Dormi no Céu aquela noite, mas mal acordei e me vi no inferno. O Flávio simplesmente contou para quase todos sobre a nossa fogosa tarde. Foi surreal e humilhante. Quando assimilei o ocorrido, engoli o resquício de orgulho que me restava e o questionei, para acabar descobrindo no meio da nossa acalorada discussão que ele nada tinha de solteiro. Era comprometido há alguns anos.
E lá estava eu, com um dia inteiro pela frente naquele hotel e sem um centavo para retornar para casa de outra forma. Nada mais me restava a não ser curtir a raiva e aturar o martírio até o final.
E então a vida seguiu. Anos depois acabei encontrando o Flávio. Ele ficou sem jeito. Eu apenas sorri e continuei o meu caminho. Sobre as excursões, bem, acabei riscando-as da minha vida. Acho que não nasci para isso. Deixo para a minha amiga Ana, que enfim arrumou uma companheira de viagem mais adequada.
Sobre as reviravoltas daquele final de semana, sem arrependimentos. Se nossas vidas são filmes, que sejam de bons momentos e não apenas um amontoado de roteiros vazios. 


M.C.








terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Blestemat



“Não havia lugar mais estranho do que Blestemat. Seu passado, recheado de fatos obscuros e a posição estratégica, por ser uma das cidades da emblemática Transilvânia, tornavam o local destino obrigatório para os turistas que se aventuravam pela região e palco de basicamente todas as histórias de fantasma do País. Ileana Vladislova, que nasceu na cidade, apenas achava graça de toda a superstição e boataria. Já se acostumara ao local, que em meados dos anos 60 conservava hábitos de séculos passados; os aldeões ainda utilizavam cavalos para checar as sepulturas onde habitavam os que morreram de forma suspeita. Acreditavam que o cavalo precisava colocar os cascos em cima do túmulo, e se o animal se negasse a tal gesto, o defunto voltaria para atormentar os vivos. Tudo aquilo lhe soava banal e ridículo, até o primeiro assassinato. “Foi apenas uma turista que se perdeu na floresta, certamente. Não há motivo para preocupação”, as autoridades disseram, após semanas de investigação sobre o caso da adolescente de 16 anos encontrada ensanguentada e largada em uma vala. E então veio o segundo assassinato, no intervalo de dois meses, uma mulher, agora decapitada, foi encontrada no rio. Tinha 20 anos e não se tratava de outra turista, era moradora da cidade. Dessa vez as autoridades não pareciam tão seguras de si, quando o comandante concedeu entrevista à única emissora de TV local. Não houve afirmações, apenas promessas de que o assassino seria preso.

Ileana não chegara a se preocupar em demasia, era inegável que soava um tanto estranho, pois apesar do ar sombrio da cidade, não aconteciam assassinatos em Blestemat, mas certamente logo prenderiam o responsável. Ileana sequer gostou quando seus pais a proibiram de sair à noite desacompanhada. Os moradores começavam a perder o controle, já Ileana estava tranquila, até que a escuridão entrou em sua vida.

Exatamente dois meses após o segundo crime, a antes otimista Ileana estava de pé no meio do cemitério observando o cortejo que trouxera o caixão com o corpo do noivo depositá-lo no local de onde partiria para a sua última morada. Em uma mudança totalmente inesperada, o assassino sem rosto e nome ceifara a vida de um homem, Simon, 20 anos, seu primeiro conhecido, amigo, namorado, amante, noivo, seu único e eterno amor. O encontraram em uma poça de sangue, completamente desfigurado e largado como lixo ao lado do seu carro, em uma noite gelada. O estrago fora tamanho que só reconheceram o corpo por conta das roupas e documentos pessoais. “Foi uma barbárie sem explicação”, o comandante dissera na TV, com o habitual cabelo engomado, embora cabisbaixo e sem conseguir mais esconder o terror que o percorria com os últimos acontecimentos. Ele nada prometeu dessa vez, simplesmente porque não parecia mais confiar em sua capacidade de chegar ao núcleo daquele mistério.

Ileana, no mais absoluto silêncio, via pessoas parando ao seu lado, apertando sua mão, prestando condolências e recitando frases que ela sequer entendia, simplesmente porque nada queria escutar. Ela nem as conhecia, tinha asco de suas expressões de pena, de falsidade, com seus gestos contidos e lágrimas forçadas. Como odiava formalidades. Por um momento visualizou os coveiros ao longe, recostados à uma grande e frondosa árvore. Já estavam prontos para agir e pareciam ainda mais impacientes do que ela para que tudo terminasse e pudessem enfim lidar com o novo habitante do lugar em paz. Seus olhos encontraram os do homem mais velho do grupo e, por um breve momento, era como se a compreendesse. Parecia ver o que estava em seu coração, a dor que a comia pouco a pouco, corroendo suas entranhas e abrindo buracos eternos, que jamais poderiam ser fechados. Ileana desviou o olhar e baixou a cabeça, localizando as botas pretas sujas de lama e ensopadas pela chuva torrencial que caíra antes do sepultamento. E lá ficou, concentrada no chão, até que os presentes pararam de cumprimentá-la e apenas a ignoraram. Ileana agradeceu aos céus e continuou fitando as botas imundas e que enfim lhe proporcionaram algum conforto dentro de sua mente destroçada.

Após intermináveis horas, Ileana foi conduzida para casa pelos pais e na cama ficou, encarando o teto. A mãe lhe deu conselhos e repetiu frases de auto-ajuda. Ela apenas balançou a cabeça, a concordância falsa e cômoda. E dali em diante não se mexeu, permaneceu na mesma posição por minutos, horas, se perdeu no tempo, que agora lhe parecia apenas fugaz, sem importância. Queria ser esquecida, deixada ali, que a dor a absorvesse completamente. Os pratos de comida que foram colocados no criado mudo lá permaneceram, intocados. Como páginas em branco de um livro inacabado, os dias passaram e Ileana continuava trancafiada dentro de si, palavras não habitavam os lábios pálidos e ressequidos, alimento algum entrava em seu organismo. Tornara-se nada mais do que um trapo humano e quando os pais já dialogavam no andar de baixo, quase decididos a procurar um Psiquiatra, veio o urro gutural no quarto do meio do corredor. Era quase animalesco, recheado de dor e ódio e durou apenas um minuto. O casal desesperado subiu as escadas temendo o pior, mas quando entraram no quarto, encontraram a filha de pé, ainda calada e abatida, mas fora do estado quase catatônico. A última refeição não estava mais no prato.

- Vou sair.
- Sente-se melhor? – a mãe perguntou, com cautela.

Ileana apenas assentiu enquanto entrou no banheiro e fechou a porta, sem dar qualquer espaço para protestos, deixando os pais confusos com a mudança abrupta de comportamento.

Ileana já fixara na mente o barulho das galochas em contato com a vegetação. Era insuportável - “ploc-ploc-ploc” -. Ela tentou abstrair o som e se concentrar no que procurava. Já percorrera quilômetros durante três longos dias, mas não chegara à tal cabana e quando começava a escurecer, retornava para casa com a sensação amarga da frustração. Tentou se lembrar do que os anciãos sempre comentavam quando se reuniam para contar as histórias da cidade. Ela não sabia se de fato a construção existia, mas estava desesperada demais para não testar todas as possibilidades. Parou e observou ao seu redor, calculando, caçando qualquer indício que pudesse lhe mostrar o caminho. A floresta era imensa e a vegetação excessivamente densa. Nunca conseguiria encontrar a maldita cabana, pensou. Checou o relógio. Passava das 16h00 e logo escureceria. Sentiu a onda de frustração novamente e balançou a cabeça. Mais um dia perdido em sua infrutífera peregrinação. Preparava-se para partir quando notou algo oculto por uma grande árvore e percebeu que talvez a sorte começasse a colaborar. Caminhou alguns metros, retirou folhas enormes que impediam a passagem e um sorriso tomou sua face. Observou a construção por alguns segundos. Era ainda mais decadente do que contavam. Uma mistura de madeiras sobrepostas sem coerência alguma. A única janela, minúscula, estava aberta e da chaminé saía uma fumaça fraca. Ileana engoliu em seco e, receosa, bateu na porta de madeira. 

- O que a garota quer? – a voz fanha e aguda perguntou das profundezas da construção decadente.
Ileana olhou pela porta. Não dava para ver quem estava do lado de fora. Não havia frestas, apesar do péssimo estado da madeira. Arqueou uma sobrancelha. – Des ... Desculpe incomodar, mas posso entrar um minuto?
- Acho que não adianta negar, certo? A garota entre de uma vez. Está frio para danar aí fora.

Ela não pensou muito, ou jamais entraria naquele lugar, apenas baixou o capuz da capa de chuva e abriu a porta, sentindo o vento quente e um odor que a deixou nauseada de imediato. Colocou a mão na boca, controlando a respiração e tentando afastar a vontade insana de vomitar

- Você se acostuma. – a voz fanha e aguda riu baixo e Ileana visualizou uma mão fina e marcada pela idade a chamando. – A garota não precisa ter medo, sabe porque está aqui. Vamos conversar.

Ileana caminhou com cautela, mas acabou por tropeçar em um obstáculo no meio do caminho. Sentiu mãos ossudas a segurando para que não caísse. Levantou os olhos e não conseguiu conter o grito ao visualizar a dona da voz estranha. Percebeu que o obstáculo era a sua cadeira. Tratava-se de uma mulher idosa, muito idosa, talvez a pessoa mais idosa que já vira, de carnes moles, era quase como se estivessem prestes a descolar dos ossos. As mãos compridas e completamente ossudas, com veias proeminentes. E como era pálida, os poucos cabelos que ainda mantinha eram brancos e desgrenhados. Ileana concluiu que a mulher era uma aberração, a forma mais horrenda com a qual já cruzara e mesmo assim não conseguia tirar os olhos da figura decrépita.

- Já terminou? – a velha perguntou e sorriu, mostrando os dentes apodrecidos pela idade e falta de asseio.
- Como? – Ileana pareceu despertar de um conto de terror e passou a mão no rosto. – Bom, vou direto ao ponto. Preciso da sua ajuda.
- Ora, ora. – a velha levantou, coxeou algumas vezes e observou a visitante. – Ileana Vladislova. De fato o que falam a seu respeito não poderia ser mais verdadeiro. A moça mais linda de Blestemat, com seus longos e ondulados cabelos cor de sangue, olhos azuis e profundos como o Céu em dias de verão, lábios carnudos, pele clara e levemente rosada, alta, longilínea e dona de um corpo perfeito. Um primor. Desejada por todos os homens. Filha da cidade e da família mais proeminente. Mas o que uma velha, sem nada a oferecer, pode fazer por você?
- Se sabe tanto sobre mim e é quem eu penso que seja, sabe bem por que estou aqui.
- E quem a garota pensa que sou? – a velha sorriu e coxeando voltou à cadeira.
- Não estou para brincadeiras. Ou decide me ajudar ou saio por essa porta e o assunto encerra aqui.
- Também não mentiram sobre sua arrogância, Ileana Vladislova. Sim, sou quem estava procurando, mas cuidado com o que a garota deseja. O destino pode ser cruel.
- Ele já foi cruel o bastante.
- Ah, sim. Soube do ocorrido com o seu belo e jovem noivo. Uma tragédia. Pobre rapaz. Por isso está tão triste? Sua pele perdeu o viço, agora só há ódio e rancor.
- Pode me ajudar?
- Isso depende. O que a garota deseja?
- Vingança. Sabe dos crimes ocorridos na cidade? – A velha assentiu lentamente e Ileana continuou. – Pode me ajudar a descobrir quem os praticou?
- Não preciso descobrir, Ileana Vladislova. Sei quem é.
- Sabe? – ela arregalou os olhos.
-  Nada acontece nessa cidade sem o meu conhecimento. Sei de tudo e de todos.
- Como pôde ficar calada esse tempo todo? – Ileana alterou a voz. – Teria evitado todo esse horror.
- Como se atreve a me afrontar, fedelha? Quantas vezes se preocupou com o que ocorria até o momento que a afetou de alguma forma? Não seja hipócrita. Não interfiro no destino, só quando me interessa. E até o momento nada tenho a ver com isso.
Ileana respirou fundo – Olha, - continuou, já mais calma. – preciso que me ajude. Estou desesperada.
- O que deseja? – a velha insistiu.
- Quero o nome do assassino. Quero destruí-lo, assim como destruiu a minha vida.
- A garota devia tomar cuidado, o ódio é um sentimento muito perigoso. Ele só nos permite enxergar parcialmente a realidade.
- Não estou atrás de conselhos. Sei o que quero. A minha pergunta é: Pode me ajudar?

Um silêncio opressivo tomou conta da cabana, tão opressivo quanto o odor de putrefação que exalava de todos os cantos. A mulher decrépita observou Ileana com seus olhos acinzentados. Sorriu de canto de boca vendo a agonia da jovem à sua frente. Por fim, cruzou as mãos ossudas no colo e apenas concordou lentamente com a cabeça.

- Então me diga. Quem é o assassino?
A velha riu. – Acha que será assim tão fácil? A garota devia saber que nada vem de graça.
Ileana bufou e enfiou a mão no grande bolso do casaco, retirando um envelope. Jogou no colo da velha. – Aí há bastante dinheiro. Agora me diga o nome.
- Não custará apenas dinheiro, que veio em ótima hora, obrigada.
- O que mais você quer? Há quase uma fortuna nesse envelope.
A velha se levantou e coxeou até Ileana. – Dinheiro é apenas papel, preciso de outras coisas. Vou lhe dar o que deseja, mas antes disso quero algo que lhe seja caro. – ela estendeu o dedo indicador e tocou no medalhão que a garota ostentava no pescoço. – Algo como isso.
- Mas... – sentiu uma dor profunda na garganta. – Esse medalhão foi presente do Simon, quando aceitei o pedido de casamento. Não tem valor algum, é sintético.
- Há o valor sentimental. Se deseja um nome, a garota terá que me entregar o medalhão.
Ileana sentiu o rosto queimar. Sem pensar muito, puxou o cordão que não demorou a romper, tamanha a ira que a tomava. Cerrou os dentes e colocou na palma da mão estendida à sua frente.          – Agora me diga o nome.
- Ainda não.
- Sua velha maldita! – gritou.
- No meu mundo fazemos trocas, Ileana Vladislova. Se quer algo, tem que me dar algo em troca. Já me pagou pelo meu tempo e já me deu um objeto que ama, o que muito me agradou, mas a garota deseja algo muito sério. Quer um nome que custará uma vida e para isso terá que me presentear com o mesmo.
- O que?
- Quer a vida da pessoa que matou o seu noivo? Pois terá que me dar uma em troca.
- Está completamente louca. Não vou matar ninguém.
- Então não temos mais o que conversar. Pegue suas coisas e saia da minha casa.
- Mas como pode me pedir tal coisa?
- Veio até mim e me fez um pedido. Essas são minhas condições. Daqui a três dias começa a Lua Cheia. Na primeira noite matará alguém e me trará um objeto pessoal do seu escolhido ou escolhida, para provar que realizou sua tarefa. No momento que cumprir a sua parte, terá o seu nome e a sua vingança. E com isso, nosso acordo estará finalizado.
- Não posso fazer isso. – ela sussurrou, sentindo-se fraca e patética, diante da velha.
- É a sua palavra final?
Ileana cerrou os punhos e fechou os olhos. Não podia desistir, não podia deixar a morte dele em vão. Fragmentos passaram por sua mente, seus últimos momentos com o noivo, as promessas de um futuro e o enterro, a dor, a ausência que nunca seria suprida. Ela deixou as palavras escaparem de sua boca, não tinha mais controle sobre os atos. Queria vingança e nada mais importava. – Ok, terá o que me pede, mas me prometa que me dirá o nome do assassino.
- A garota tem minha palavra. Dê-me o que quero e em seguida terá o que deseja.  Mas... – a velha apontou a unha em sua direção. Devo lhe precaver novamente. Cuidado com o que deseja, pois certos caminhos não têm volta.
- Vá para o inferno.
- Já estou lá há um bom tempo. A garota devia saber disso. – ela sorriu. – Me dê sua mão.

Ileana a olhou desconfiada, enquanto estendia a mão na direção da velha, que a segurou com uma força desproporcional à sua idade e físico. Antes que pudesse protestar, sentiu o gume da faca rasgar sua pele e carne e o sangue de um vermelho vívido descer sem controle até um pequeno recipiente de vidro.

- O que está fazendo? – ela tentou puxar a mão sem sucesso.
- Estou selando o nosso pacto. – A velha sorriu e soltou a mão de Ileana, que a envolveu em um pano para conter o sangramento. - Espero a garota na primeira noite de Lua Cheia.

Ileana nem se deu ao trabalho de responder. Deixou a cabana e correu. As galochas afundavam na lama, mas precisava se afastar daquele lugar. Sabia que o destino estava selado e que não podia voltar atrás. O que ela havia aceitado? Como poderia matar um inocente? Por que havia concordado com tudo aquilo? Estaria louca? Quando não suportou mais o esforço, parou, sentou-se no tronco de uma árvore e levou as mãos à cabeça, tomada pelo desespero.

A Lua iluminava o cemitério em plenitude, encantando os amantes da noite e aterrorizando os supersticiosos. Ileana estava ajoelhada em frente ao túmulo onde o noivo jazia. As flores que deixara no dia do sepultamento ainda estavam lá, melancólicas, morrendo lentamente. Ela queria se lembrar de alguma oração, mas não conseguia, a mente estava oca. Na verdade estava no único local onde poderia encontrar a redenção, o perdão pelo pecado capital que logo cometeria. Sabia que ele a perdoaria, ele a entenderia, como sempre. Por Simon se tornara uma pessoa melhor, ele a resgatou de uma vida fútil e agora, sem ele, tudo perdera o sentido. Seu coração voltara a ficar negro e a alma atormentada. A realidade sem ele era cinza e sem resquício algum de felicidade. O noivo não mereceu seu destino e ela o vingaria. Devia-lhe isso. E os débitos precisam ser pagos.

Não teve muita dificuldade para encontrar a cabana daquela vez. As mãos encharcadas de sangue possuíam um brilho estranho à luz do luar. Em uma das mãos trazia o punhal e na outra a echarpe da gentil senhora que morava ao lado da sua casa e sempre que a via a chamava de “doce garotinha de cabelos vermelhos”. - Ileana caminhou até a casa recheada das rosas mais perfumadas da vizinhança e bateu à porta, pedindo para ficar lá até a mãe chegar. A senhora, gentil como sempre, permitiu sua entrada sem delongas e, com isso, deixou que a traição penetrasse em seu lar. A senhora perguntou se Ileana queria biscoitos recém saídos do forno. Ileana assentiu, com um belo sorriso estampado no rosto. A senhora lhe deu as costas e isso foi sua ruína. Ileana não perdeu tempo e retirou o punhal do bolso da calça. Segurou a  frágil senhora pelos cabelos e a estocou uma, duas, três, infinitas vezes. Os olhos da gentil senhora encontraram os de Ileana e percebeu que estavam vazios. A doçura se esvaíra, como agora sua vida, que era ceifada pela jovem que pegara no colo um dia e que desde o primeiro momento achou ser a coisa mais linda e suave que já vira em toda a sua existência. Não poderia estar mais enganada. – Ileana entrou na cabana sem bater. Não estava para cerimônias. Cumprira sua parte, agora teria o nome. Encontrou a velha, ainda no mesmo estado decrépito e assustador. Caminhou decidida e depositou a echarpe na mesa à sua frente. A velha pegou o pedaço fino de tecido, o observou, cheirou e sorriu, deliciada.

- A garota tem palavra.
- Me diga o nome.
- Direi. A garota manteve a palavra e agora a velha manterá a dela. – ela levantou e com o seu coxear habitual foi até uma pequena prateleira e pegou o recipiente com o sangue que retirou da mão de Ileana. Pegou também o medalhão. Trouxe tudo para a mesa. Baixou a cabeça e começou a recitar palavras incompreensíveis aos ouvidos humanos. Durou menos do que um segundo e depois a velha se recompôs. – A garota quer saber quem é o assassino?
- Sim. Fale de uma vez.
- Venha até mim. – ela estendeu a mão.
Ileana ficou ao lado da velha, que a guiou até um espelho. – Aqui está sua resposta.
- Do que está falando?
- Queria um nome. Eis sua resposta. Você é a assassina, Ileana Vladislova.
- Como assim? Não matei aquelas pessoas. Só fiz o que me pediu.
- Não lhe pedi nada. Você veio até mim.
- Sua maldita. Pediu-me que lhe desse uma vida para que pudesse me contar quem matou o Simon.
- Simon? Mas o Simon não está morto, minha querida.
- Como? – Ileana sentiu o coração começar a falhar, parecia perder o ritmo dentro do peito. – Como não está morto? Bruxa dos infernos! Ele está enterrado no cemitério. Está completamente louca?
- Quando veio até mim lhe dei dois conselhos, lembra? O ódio nos cega, apenas nos permite ver uma parte da realidade. – a velha caminhou com desenvoltura, não estava mais coxeando. Ileana não compreendia o que estava acontecendo e por que se sentia cada vez mais fraca. – Se tivesse prestado atenção a qualquer outra coisa além do desejo de vingança, teria percebido que durante todo o tempo o seu amado estava mais perto do que imaginava. – ela foi até o extremo da cabana e retirou uma lona. Simon estava caído, mas parecia... Vivo.
- Não! Você me enganou, como... Como pôde fazer isso comigo? Matei uma pessoa por sua causa.
 - A garota matou uma pessoa porque quis. Ofereci-lhe opções, não a obriguei a nada. A sua beleza, Ileana Vladislova, é do tamanho da sua maldade. Nunca teve bom coração, sempre cultivou pensamentos sombrios. Sei tudo sobre você e a fiz vir até mim. Foi tão fácil. Fazer um lobo destroçar uma garota qualquer aqui, mexer com a mente de um homem perturbado ali, para que atacasse outra mulher e o golpe final, esse em particular precisou de certa dose de requinte. Tomou-me algum tempo. Tive que encontrar um andarilho com o mesmo porte físico do seu noivo para forjar a morte. Movendo as peças certas, o imaginário dos homens se encarrega do resto. Você é a minha melhor e aguardada recompensa.
- O que quer de mim?
- O combustível para continuar existindo.
A velha caminhou em direção a Ileana que tentou correr, mas não possuía forças, perdera o controle dos membros. – O que está acontecendo comigo?
- Não se preocupe, não deve demorar. Logo sentirá vontade de dormir, tentará resistir, mas de nada adiantará. E então, após o sono profundo, tudo estará terminado.
- Tudo ... o ... q... – a pergunta ficou no ar, pois Ileana perdeu totalmente os sentidos. Viu-se presa nas teias de um sono sem sonhos e sem esperança.

A luz continuava piscando, torturando seus olhos. Boca seca. Gosto de medicamentos que não conhecia. Dormência. Olhos lacrimejantes. Lutava contra o cansaço que a dominava. Precisava despertar. Escutava gritos ecoando, em algum canto daquele lugar desconhecido. Com muito esforço, retomou a consciência. Mordeu o lábio, confusa. Onde estava?  Não conseguia mexer os braços e as pernas. Levantou a cabeça e logo entendeu o porquê da sensação de imobilidade. Estava amarrada a uma cama. Puxou as amarras para tentar se soltar, mas não tinha forças para tal. Continuou se debatendo alucinadamente por minutos sem sucesso e parou ao notar um importante detalhe. O que havia acontecido com suas mãos?  Aquelas não eram as suas mãos. Esticou-se o máximo que pôde e olhou os pés, eram os membros mais grotescos que já vira. O que estava acontecendo?  O que acontecera ao seu corpo?

- Socorro! – reuniu todas as forças e urrou em direção à porta. – Alguém me ajude. Socorro! Socorro! Por favor... – suplicou, já em um fio de voz.
Escutou as trancas da porta se abrindo e respirou em descompasso, temendo quem apareceria. - Que não seja a bruxa, meu Deus! – implorou. Havia dias que não se lembrava Dele e não sabia se estaria muito disposto a ajudá-la. Suspirou ligeiramente aliviada quando viu uma enfermeira alta e corpulenta adentrando rapidamente no recinto.
- O que você quer?
- Quero saber o que está acontecendo. Precisa chamar os meus pais. O Simon... O Simon está sozinho na cabana com aquela bruxa maldita. Por favor, não sei o que houve com os meus braços e pernas. Me ajude.
- Do que diabos está falando?  Quer tomar outro calmante?
- Não, por favor, chame os meus pais. Eles vão me tirar daqui, tenho certeza. Meu nome é Ileana Vladislova. Posso lhe dar o telefone deles. Temos que ajudar o Simon.
- Qual o seu nome?
- Ileana Vladislova.
- Ficou louca, vovó? - a enfermeira riu e colocou a mão na enorme barriga. – Volte a dormir antes que me irrite e lhe aplique um daqueles remédios bem fortes na sua veia. Vai deixá-la bem calminha.
- Não entende?  Estão cometendo algum engano. O meu nome é Ileana Vladislova. Por que me chamou de vovó?  Só tenho 19 anos. O que está acontecendo?  - começou a sentir o desespero a tomando. – Por favor. Por favor... – sentiu as lágrimas tomarem sua face.
- Volte a dormir e pare de perturbar, vovó. Facilite a nossa vida, ok?
- Meu nome é Ileana Vladislova. Meu nome é Ileana, pare de me chamar de vovó. – ela viu a enfermeira dar as costas e se descontrolou completamente. – Meu nome é Ileana, aquela bruxa deve ter feito algum feitiço. Ei! Volte aqui, sua idiota! Volte aqui, estou falando com você. Meu nome é Ileana! Ileana! - E ela continuou gritando, seus berros ecoando pelo imenso corredor, enquanto a enfermeira dirigia-se para o seu posto.
- Não ganho o suficiente para isso. – ela comentou com sua amiga, mais jovem e igualmente amarga.
- Ela ainda continua com as alucinações?
- Sim, continua falando que é a tal garota que foi encontrada junto ao noivo na cabana abandonada. Não admite que tentou matá-los e que matou a vizinha da garota. Está completamente fora de si.
- Velha louca.
- Não quero mais falar disso. Vamos tomar um café?

A mais jovem assentiu e se dirigiram para a cantina, a voz ainda ecoando ao fundo. “Meu nome é Ileana.” “Meu nome é Ileana”. “Meu nome é Ileana e tenho 19 anos.” “Meu nome ... “. O som sumiu na solidão da cela do hospício, sendo sepultado no local, o túmulo infinito, que guarda almas atormentadas por seus demônios internos. “
---------------------

A quase adolescente olhou de soslaio para o avô e riu.
- Ah, vovô! Isso aconteceu mesmo?  Está inventando só para que não entre na floresta.
- É o que contam, querida. – ele apertou o nariz da garota. – E não quero mesmo que entre na floresta. Estão à procura de quem praticou o crime.
A garota sorriu e gritou para a avó que se aproximava com bolo e suco. – Acredita nisso?
- No que?
- Nessa história de fantasmas que o vovô contou.
- O seu avô adora essas crendices bobas, sabe disso.
- Não se sabe se é ou não verdade. – o homem protestou.
- Pare de assustar sua neta.
- Vovô, mas quem matou as outras pessoas? Foi mesmo a tal bruxa?
- Não sei, querida. Só sei que não a quero na floresta.
- O que acha, vovó?  Quem está matando as pessoas agora?  Queria encontrar a tal bruxa para perguntar. – a garota sorriu ironicamente.

A senhora elegante mexeu nos belos cabelos outrora vermelhos, abriu seus olhos azuis como o mais puro Céu em dias de verão e sorriu com ar incerto, olhando o horizonte. – Cuidado com o que deseja, minha querida. O destino adora nos pregar peças e o que realmente acho é que a morte dessa garota logo será uma tragédia, logo será uma lembrança, logo será um mistério... 




Paula Bezerra.