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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Monge



Diz a lenda que em 1816 um monge chegou à Belo Paraíso, o lugar mais lindo onde se poderia estar. Flores enfeitavam os jardins, o céu era de um azul esplendoroso e pequenos lagos banhavam a esplendorosa cidade. Tudo transparecia prosperidade, paz e felicidade. O homem desejava de todo o coração que aquela fosse sua morada pelo resto da vida. Mas com o passar dos meses, os habitantes começaram a não mais apreciar a sua presença. O homem começou a lhes parecer estranho, soturno, sombrio, até mesmo agourento. O queriam longe. As autoridades pediram que deixasse Belo Paraíso, mas ele não queria partir. Deixaram as palavras de lado e derrubaram a casinha que ele construíra, novamente exigindo que partisse. O monge ficou. Até que um dia ele apenas desapareceu. A quem perguntassem nada tinham visto, de nada sabiam. E assim o homem nunca mais foi visto. O verão acabou, o inverno começou. E então em uma manhã, gelada como poucas, caminhando pelos campos, uma senhora bastante idosa avistou o monge. Ele pediu que nada temesse, não a faria mal, só queria transmitir um recado. Queria que todos os habitantes de Belo Paraíso soubessem que um dia teriam contas a acertar. Tiraram sua casa, sua paz e sua alegria. Um dia ele voltaria e tomaria o que mais amassem, exatamente como lhe fizeram. Desde aquela manhã, a senhora repetiu as mesmas palavras até que deu seu último suspiro alguns anos depois. Séculos se passaram e os mais antigos da cidade falam que o encontro no bosque partiu da imaginação fértil da velha senhora, mas há quem afirme de pés juntos que um dia o monge voltará e cumprirá a sua promessa.
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Arnaldo Klein novamente foi acordado pelo toque frenético do seu telefone celular. Resignado pegou o aparelho. Ele nem precisava abrir os olhos para saber que algum problema sério acontecera. Beca, sua esposa, também acordara e fora dar uma olhada no filho que dormia na pequena cama ao lado. Suspirou aliviada ao notar que o pequeno Benjamim nem se mexera. Continuava dormindo sereno. Observou os gestos do marido ao telefone.
Ele desligou e se voltou para Beca. Suspirou.  – Desculpe. Tenho que ir.
            - O que houve? – ela perguntou já imaginando a resposta. Com o silêncio, insistiu. – O que aconteceu?
            -  Mais uma criança desaparecida.
            - Meu Deus! – Beca levou as mãos à boca. – Já é a segunda?! O que... Isso não pode ser verdade.
            Arnaldo vestiu o uniforme rapidamente, pegou a arma e o distintivo no armário, caminhou até onde a esposa estava. Beca notou que ele mal lembrava o homem alegre e otimista pelo qual se apaixonara.
            - Tome cuidado. – Beca tocou em seu rosto e acariciou os pelos da barba que começavam a aparecer.
            O policial Klein apenas assentiu e partiu sem olhar para trás.
            Beca balançou a cabeça e sentou-se na cama aturdida e assustada pelos últimos acontecimentos.

            Quando o policial Klein desceu da viatura o clima estava instaurado. Curiosos de pijamas em frente à casa, portas abertas, mais viaturas, a van da única emissora da cidade, com o seu repórter habitual, já na casa dos 50 anos e acima do peso, brigando com um paletó amassado e encardido, tentando parecer apresentável para entrar no ar e atualizar os espectadores sobre o caso. Era como uma cena clichê de roteiro policial, mas com péssimo orçamento e narrativa surreal.
Não demorou muito para focar a atenção nos pais. A mulher, descabelada, chorava copiosamente nos braços do marido, que a amparava tentando manter o mínimo de sobriedade diante da situação. O fato de se tratar de uma cidade pequena ainda lhe trazia um complicador e tanto. Conhecia e bem todos os envolvidos na tragédia que se instaurara. O casal em questão sentava nas cadeiras ao seu lado na igreja aos domingos e o menino desaparecido, Cláudio, brincava com o seu filhinho após a missa, no jardim e no parquinho.
            Aproximou-se dos colegas e logo foi atualizado sobre o caso. A mesma história. Tudo estava bem, até que do nada o menino sumira sem explicação alguma. Como fumaça, apenas desaparecera. Nenhuma carta de resgate, nenhum aviso, nenhum barulho, apenas o vazio no quarto que antes fora ocupado pela criança brincalhona. Sequer um brinquedo fora do lugar. Era como se ele nunca tivesse existido.
            O policial Klein parou ao lado dos pais. Pegou o bloco e a caneta e forçou a sua melhor expressão profissional. Baixou a cabeça segundos depois. Aquilo era um pesadelo. Respirou fundo e tentou se recompor.
            - Jorge, Ana. Eu sinto muito que tenham que passar por isso, mas preciso da ajuda dos dois para encontrar o Cláudio, ok?
            - Arnaldo, ele sumiu. Não consigo entender o que houve. Estava dormindo no quarto. Tinha acabado de deixá-lo na cama. - Jorge falou com a voz trêmula.
            - Alguém não pode ter entrado pela janela? De repente a porta dos fundos não estava bem fechada.
            - Não, não. – O pai balançou a cabeça, contrariado. – Desde o desaparecimento da outra criança que toda a casa fica trancada. Sei que estava tudo em ordem. Tomamos todos os cuidados para proteger o nosso filho.
            - Pense bem, Jorge. De repente algo passou despercebido.
            - Vocês não entendem, não é? – a mãe falou em um fio de voz.
            - Não comece com isso, Ana.
            - Vocês não querem enxergar o óbvio.
            - Que óbvio? Do que está falando, Ana? – o policial questionou a mulher que parecia alheia, olhar distante, rosto tomado pelas lágrimas e a voz como um sopro de vento.
            - Foi ele.
            - Ele? Ele quem?
            - Cale a boca, Ana. Não quero ouvir essas sandices. – Jorge alterou a voz. – Não dê ouvidos a ela, Arnaldo. Está nervosa, só isso. – Jorge pegou no braço da esposa, que o afastou duramente.
            - Eu não estou nervosa ou louca. Foi ele, será que não entendem? São cegos? Já se esqueceram do que ele prometeu? Eu disse que deveríamos ter saído da cidade, Jorge. Eu disse. Agora o nosso filho sumiu e a culpa é sua.
            - Ele quem?
            - Ele prometeu que voltaria um dia, ele prometeu. Ele está levando os nossos filhos.
            Gritos descontrolados ecoaram pelo ar, atraindo toda a atenção da multidão que aguardava em frente a casa. – Protejam as crianças. Ele voltou. Ele vai matar a todos. Ele veio cobrar a dívida... - O marido tentava segurá-la, em um misto de vergonha e pesar, mas não conseguia acalmá-la. O policial Klein acompanhava a cena grotesca chocado, impassível, impotente. Era como se estivesse grudado no chão. E aos poucos, apenas as palavras da mulher ocupavam a sua mente, dominando o seu raciocínio.
            Protejam as crianças. Ele voltou. Ele voltou. Ele vai matar a todos.”
            Então como se saísse de um transe, algo despertou o seu medo mais profundo, primitivo e sentiu uma dor lacerante no peito enquanto dos seus lábios apenas uma palavra traduziu o seu pavor.
            - Benjamim.

CONTINUA...




Paula  Bezerra.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sobre o amor e o ódio

Amor e ódio são sentimentos essencialmente egoístas. Sua natureza, no entanto, é absolutamente distinta: enquanto o amor é degenerativo e autodestrutivo, o ódio prima pela preservação do indivíduo. Aquele que ama deseja morrer antes do ente amado, para não sofrer a perda deste. Aquele que odeia, por outro lado, deseja viver o bastante para poder desfrutar a morte do objeto de seu ódio. Disso concluo que o ódio é preferível ao amor.

Entretanto a avaliação a respeito de tais sentimentos pode e deve ser estendida, tendo em vista que há, para além do tradicional entendimento do amor como afeto sincero de um indivíduo específico por outro indivíduo específico, diversas aplicações para a palavra.

Eis o sentimento amoroso em sua forma pura e autêntica: o amor-próprio. É ele que nos alimenta e nos movimenta, que nos propulsiona, que norteia nosso senso de autopreservação; é ele que nos conduz à superação das deficiências e ao aperfeiçoamento das competências; também é ele que, para garantir nossa integridade individual, produz sentimentos destrutivos - o ódio, por exemplo - acerca de terceiros que nos são de algum modo nocivos.

Há também outra categoria de amor que merece nota: o amor ao próximo, excrescência cancerosa tão comum àqueles incapazes de amar a si, incapazes de elevar-se, incapazes de impor sua vontade ao mundo que os rodeia. Essa modalidade de amor busca, ainda que disfarçadamente, nivelar todas as potências pessoais, e para isso tolhe - seja através de credos ou ideologias - as individualidades e converte o conjunto humano em uma massa homogênea apodrecida.

Por fim, tendo em mente o que foi evidenciado anteriormente, constato que o amor ao próximo é a máxima expressão egoísta do derrotado que não aceita seu solapamento. Sendo assim, o ódio se revela uma ferramenta eficaz para combater esse amor que, na realidade, trata-se de um antiamor, um inimigo velado da espécie humana.



Paulo Cioli, 29 de dezembro de 2016.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Heróis



Quando eu era criança, a minha avó sempre me contava uma história, sobre uma menina rechonchuda, em um bairro qualquer, que estava toda amuada, esperando o irmão para brincar. O irmão mais velho, sempre ocupado e sem paciência para aturar a irmã caçula, já tinha desculpas prontas para nunca estar disponível, mas naquele dia em particular ele saíra para buscar a TV preto e branco para ver a semifinal da Copa do Mundo. Era uma data e tanto. O País estava pronto e esperançoso. Anos aguardando um título que não chegava, mas naquele ano seria diferente, o caneco viria. 

A menina levantou do sofá, toda serelepe, quando o irmão apontou no topo da ladeira, com a TV enorme, quase o cobrindo, balançando em cima de um carrinho de mão que pedira emprestado ao vizinho. O irmão colocou a TV no lugar e sorriu, rosto vermelho e triunfante. Aquele era o dia e tudo valeria à pena.

Mas não foi bem assim. O Brasil perdeu e mais um título foi embora. A menina viu que o irmão colocara as mãos no rosto para não mostrar que se rendera à tristeza. Ele chorava copiosamente. Ela se aproximou meio curiosa. Não entendia o porquê de tanto esforço para buscar a TV e a tamanha tristeza, mas não conseguia ver o seu irmão triste. O abraçou e, de perto, ainda agarrada ao seu pescoço, olhou para a TV e é como se tudo fizesse sentido. A partir dali ela começou a ver que o futebol era como a paixão, que traz felicidade, mas também pode ferir. Ali ela percebeu que a dor e o amor se intercalam naqueles 90 minutos que o seu time está dentro do campo. Ali ela entendeu o seu irmão. Ali ela começou a amar o futebol , onde todos os esforços valem à pena. Onde todos podem ser heróis ou vilões, dependendo do resultado, onde ainda é possível sonhar e esquecer os problemas, viver momentos que, pelo menos naquele espaço em particular, se tornam eternos. Essa criança e tantas outras, cada uma a seu modo, carregam no sangue essa paixão pelo esporte. 

A menina só não aprendeu que certas dores são profundas demais, machucam a carne como poucas. Que sonhos podem se despedaçar antes mesmo de começarem a ganhar corpo.
Esperanças interrompidas em um dia aleatório, mas que agora dificilmente será esquecido, por mais que tudo se torne reles, com a velocidade absurda da informação, certos fatos teimam em ficar, para te mostrar a brevidade da existência.

Muitos dirão que foi a vontade de Deus. Outros que há uma explicação para tudo, que a vida não presta. Dizeres passionais são comuns em momentos de tragédia, mas quando aquelas pessoas entraram no avião rumo à Colômbia, só queriam o instante mágico, onde a alegria transborda e tudo se torna especial. 

O destino pode ter aprontando mais uma das suas, mas os guerreiros da Chapecoense jamais serão esquecidos. Tornaram-se heróis, os heróis de novas histórias que ainda serão contadas. 


Paula Bezerra.






segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sentenças agudas

Matéria: tudo o que há, considerando-se que o imaterial, enquanto coisa não comprovada, simplesmente não pode existir.

O conhecimento de que a matéria abarca toda a universalidade das coisas nos explicita que os impulsos vitais são nosso único e poderoso motor - e que a razão da vida é a própria vida. Portanto, qualquer tentativa de dar à existência propósito transcendental deve ser violentamente repelida.

Espírito: delírio da carne apodrecida, que busca abstrair-se de si mesma e, calcada na concepção de propósitos impalpáveis, prosperar em um mundo etéreo, insólito.

A crença em um plano alheio a este é a desconsideração da imanência da matéria - e, por extensão, do mundo. Conceber valores externos àqueles impostos pelo corpo é algo tão estapafúrdio que, em comparação com a irracionalidade, faz esta assemelhar-se à mais esclarecida das filosofias.

Viver: aceitar o império da carne sobre o espírito, da matéria sobre a ideia, da hostilidade sobre a candura; entender que a plenitude reside em saber amar a própria existência e fazer das dores motivo de alegria.

A erroneamente pressuposta heterogeneidade do espírito e a infantilmente autodeclarada pluralidade das ideias se esfacelam quando em contato com a ortodoxia da carne, da crua carne, da furiosa carne, da violenta carne. A matéria viva oblitera o que é espiritual e ideológico.

Utopia: estupidez a que se rendem os fracos, os degenerados, os desprovidos de amor à vida, pois os seres plenos não necessitam de espírito e ideologia, porquanto eles vivem, e isto lhes basta.

O mundo ilusório é o subterfúgio daqueles que não suportam a imperiosa factualidade das explosões vitais do mundo material. A imaterialidade é a mentira dos derrotados, dos que, por resultado de sua impotência, são incapazes de resistir à plena pureza dos que amam a vida tal qual ela é.

Felicidade: aglomeração de todos as nossas paixões, de tudo aquilo que nos faz verdadeiramente bem e que nos eleva enquanto seres competitivos e ávidos por mais poder.

Ser feliz é viver plenamente e rejeitar tudo o que não se pode materializar, pois que a doutrina da carne é nosso único axioma, nossa inapelável máxima, nossa universal e irrefutável verdade.



Paulo Cioli, 28 de novembro de 2016.

Soneto de Paulo Cioli ao EP "Condôminos", de Pedro Gama

Se a incerteza acerca da tua sorte
for à noite à tua porta bater,
não procure resposta num recorte,
anote o mote: pergunte a você.

No décimo quinto poste da via
topei co'um bebum que, a rodopiar,
refletiu meus anseios de alforria,
como espelho do que ainda virá.

De volta à casa, busquei meus retratos,
os fitei, relembrei meus próprios atos,
sentei à minha mesa e percebi:

não somos mais que meros viajantes,
condôminos somente por instantes
do corpo que nos permite existir.



De: Paulo Cioli



Link do vídeo com o soneto declamado por Pedro Gama e Jéssica Lôro: https://www.youtube.com/watch?v=xUN9asfB6NU

Link do EP: https://www.youtube.com/watch?v=JSnujfPVwSY

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um homem


De olhos fundos e ar grave e ensimesmado,
um homem leva o peso do futuro
- sombrio como o ventre mais escuro -
nas costas que sustentam seu passado.

Talvez, sabendo ser mero monturo
aquilo que lhe aguarda do outro lado,
evite, como um clérigo calado,
espiar o que existe além do muro.

Caminha, como que mirando o nada,
sob o bruxulear da madrugada,
pensando no rapaz que foi outrora,

rapaz que, por um crime ou por desgosto,
minguou como minguou o ardor do rosto
e agora no seu corpo já não mora.



Aquarela: Roberto Velasco
Soneto: Paulo Cioli

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ele ...




Não sei se escolhemos nos envolver ou se o destino se encarregou disso e apenas nos deixamos levar, impassíveis, porque era bom estar juntos, sem rótulos, sem direção. Não sei se houve algum tipo de pacto que um começaria a dormir na casa do outro, sentar para ver filmes, ou apenas estar lado a lado, no mais calmo, aconchegante e descompromissado silêncio. Não sei como, por que ou quando, mas o fato é que ficamos e estávamos. Era bom. E então decidimos apenas continuar.

E como nunca combinamos nada em nossa rotina, não marcamos local ou hora para comemorar seis meses de nossa rotina não-convencional, mas que carregava uma certa coerência, dentro de nossa perspectiva. Não que fôssemos iguais, éramos tão diferentes. Fogo e gelo. Eu queria tanto, ele só queria continuar seu caminho, como uma onda. Não concordávamos nessa questão e em tantas outras, mas apenas a sua presença me bastava. Era um pacto sem laços ou documentos.  

E ainda sem saber de muito ou quase nada, ele me falou, naquela manhã, enquanto se vestia no banheiro que nos veríamos para comemora os nossos seis meses.
- Onde? Quando? – perguntei curiosa.
- Na hora saberá. – ele mal me olhou para responder, enquanto pegava sua mochila e saía apressado pela porta. Ele sequer tocara nas torradas parcialmente queimadas e o suco que preparara com tanta boa vontade. Suspirei. Era um cara e tanto. O odiava e o queria ao mesmo tempo. Sentimentos conflitantes que me tomavam quase diariamente desde que o conheci. Ele libertava o meu melhor e o meu pior sem muito esforço.

Ele sabia que eu era curiosa e me deixou até o final da tarde daquele dia observando o meu celular como uma adolescente tola. Era insuportável pensar em mil possibilidades do que faríamos ou sequer se isso de fato aconteceria. Não seria a primeira vez que inventaria algo para fugir de um compromisso, e quando quase me rendia a essa dolorosa possibilidade, surgiu uma mensagem no celular. O meu coração disparou. Era tão ridículo me sentir daquele jeito. Fiz-me de desapegada e me obriguei a aguardar pelo menos cinco minutos antes de ler o que martelava a minha mente. O meu amor próprio precisava disso. Tempo cronometrado, abri meu celular rapidamente e li apenas:
Vá até o pub da esquina e me avise quando chegar lá.”

Cocei a cabeça e imaginei que ele estaria lá me aguardando, mas se fosse esse o caso, por que me pediu para avisá-lo quando chegasse? Cogitei em ligar, mas depois desisti. Faria papel de boba. Apenas peguei a bolsa e o casaco e rumei para o local apontado.

O pub estava parcialmente lotado. Era uma quase noite de Sexta. O que não faltava eram clientes loucos por álcool e momentos de diversão. Observei o perímetro e não o vi. Ainda confusa pelo desenrolar da primeira mensagem, apenas peguei o celular e digitei que estava no local e aguardei. Segundos depois, uma nova mensagem:
Vamos brincar um pouco?
Sorri sem jeito. O que estava acontecendo? Pensei por alguns segundos e respondi com outra pergunta:
Do que está falando?
Mais alguns segundos de espera:
Quero que sente na mesa mais afastada e me avise quando fizer isso.

Estava completamente confusa, mas também curiosa. Na verdade, a minha curiosidade crescia a cada instante.

Observei uma mesa ao fundo, quase à meia-luz e me acomodei. Respirei fundo e avisei que tinha atendido o seu pedido. Coloquei o celular em cima da mesa e cruzei as mãos no colo. A próxima mensagem demorou um pouco e quando o aparelho vibrou, o peguei sem demora.
Você tem uma escolha a fazer: Pode continuar ou sair e ir embora para casa, mas se ficar terá que fazer o que eu mandar. O que me diz?
Que loucura é essa? – pensei. – Será que clonaram o meu telefone?

Brinquei com o recipiente de sal por alguns minutos pesando mil possibilidades, mas queria saber em qual caminho aquilo daria. Então apenas respondi que ficaria e fechei os olhos, tentando controlar a minha respiração e a excitação que começava a me tomar.
Os segundos e minutos quase viraram uma eternidade. A próxima mensagem não chegava. Se aquilo fosse uma brincadeira e ele aparecesse na minha frente o mataria, isso era um fato e não haveria misericórdia.

E a tão aguardada mensagem enfim apareceu. Enquanto lia, arregalei os olhos ao tentar assimilar cada palavra.
Quero que tire a calcinha e se masturbe exatamente onde está. Após gozar, quero que deixe a calcinha na cadeira ao lado, levante-se e vá para a sua casa.

Senti o meu rosto queimar. Parecia que todos no pub me olhavam e sabiam exatamente o que me havia sido pedido. Eu não podia fazer aquilo. Era absurdo, mas algo dentro de mim queria que fizesse. Apertei os meus dedos, ainda cruzados no colo. Senti uma pontada de dor, pela pressão exagerada. Fechei os olhos e imaginei a cena, parecia a coisa mais maluca e ao mesmo tempo a mais erótica.
Fiz o gesto para levantar duas vezes, mas desisti. Eu queria fazer aquilo, mesmo sabendo que ele não estava vendo, mas apenas tinha certeza de que ele sabia que atenderia o seu pedido. E então levantei a minha saia e comecei a retirar a minha calcinha, lentamente, para não fazer alarde ou chamar atenções desnecessárias.
Enquanto me despia, da peça íntima e do bom senso, ouvia o meu lado racional e amedrontado gritando para que parasse, mas era mais forte. Iria fazer o que ele quisesse, não retrocederia. Senti a renda deslizar pelas minhas pernas trêmulas e desloquei o meu corpo até que a conseguisse pegar com os meus dedos da mão direita. Depositei-a ao meu lado e preparei-me para o movimento seguinte. Timidamente introduzi o meu indicador dentro da minha vagina e comecei a brincar com o meu clitóris. Estava tão nervosa e com medo de ser descoberta que demorou um pouco até que começasse a sentir prazer com a estimulação. O calor começou a tomar conta do meu corpo e minha respiração aumentava na mesma intensidade com que o meu indicador e o dedo médio exploravam a minha intimidade. Era muito excitante saber que estava me masturbando no meio de tantas pessoas e ao mesmo tempo, suas expressões distantes, alheias ao prazer que estava sentindo, começaram a me dar a leveza e a permissão para que continuasse, até que fechei as pernas e os olhos, segurando o grito e chegando ao clímax sem reservas, dúvidas ou culpa. Apenas fiquei ali, curtindo o momento, como se nada mais houvesse ao meu redor, apenas o vazio do prazer saciado, apenas um sorriso bobo que invadiu a minha face.

Após me concentrar por certo tempo em uma mulher que dava goles curtos e monótonos em um copo de cerveja, peguei guardanapos e comecei a me limpar, ainda com bastante cuidado para não fazer movimentos bruscos. Quando tive a certeza de que estava apta a deixar o local, levantei-me e saí, com passos largos e deixando para trás a minha calcinha verde de renda. Balancei a cabeça ao imaginar quem seria o ou a escolhida para encontrar o meu presente.

Peguei o primeiro táxi que passou e entrei rapidamente em casa. Um silêncio sepulcral cobria todo o espaço. Procurei por ele, mas não havia sinal de sua presença. Dei uma olhada rápida para o meu celular, procurando por novas mensagens, mas nada. Caminhei até o corredor e notei que a porta do meu quarto estava fechada. Isso não era normal. Bingo. O que me aguardada estava naquele cômodo.

Coloquei a mão na maçaneta e hesitei. O que ele queria com tudo aquilo? Balancei a cabeça e abri a porta em um impulso. Nada havia de anormal desde que saíra pela manhã, apenas a cama estava metodicamente arrumada e havia um tecido em cima dela junto a um pedaço de papel. E no papel apenas uma frase em caligrafia simples:
Tire a roupa, use o tecido como uma venda e deite-se na cama.

Cocei a cabeça e chequei o perímetro do quarto. Onde ele estaria?
Toquei o tecido preto com a ponta dos dedos. Era agradável, parecia cetim.
Desisti de tentar encontrá-lo e comecei a despir-me lentamente. A blusa branca, a saia preta, o sutiã verde de renda, órfão da sua peça complementar intencionalmente esquecida no pub e o sapato preto foram ao chão sem muita cerimônia. Sentei-me na cama e amarrei o tecido, tirando a minha visão e me acomodei no travesseiro, apenas aguardando. Sentia minha pulsação forte, vibrante e o movimento do meu peito, no ritmo de sobe e desce de quem anseia por algo. Estava completamente excitada. Todo o processo, o mistério, a masturbação em local público e o fato de não poder ver o que acontecia ao meu redor destruíram o meu autocontrole.

Escutei passos próximos da cama e mordi o lábio. Não podia ver, mas podia sentir que era ele, não havia como estar enganada. O fato de estar intencionalmente privada de um dos sentidos aguçava os demais. Era algo inexplicável, mas era forte, muito forte.

Ele tocou os meus pés com as pontas dos dedos e começou a subir lentamente a minha perna, percorrendo a minha pele. Arqueei o corpo. Estava completamente molhada. Cada pedaço de mim clamava por mais. Tremia a cada centímetro explorado. Queria levantar e tirar a venda e gemi baixo quando os seus lábios quentes se aproximaram do meu ouvido e ordenaram que não me mexesse, que apenas aproveitasse o momento.
Senti que ele estava na cama. Suas mãos afastaram as minhas pernas e as arquearam. Ele introduziu os dedos dentro de mim, até que deu lugar a sua língua, e começou a movimentá-la, imitando os movimentos da penetração enquanto brincava com o meu clitóris com o polegar. Gritei alto, estava pegando fogo. O queria como nunca antes. Gozei sem demora e tremi ofegante. Ele continuava me sugando e após alguns segundos, sussurrou no meu ouvido para que ficasse de quatro, o que prontamente atendi. Na situação que me encontrava, faria o que ele pedisse e sem questionar. Ele se aproximou de mim e puxou o meu cabelo de leve enquanto me penetrava, alternando a frequência, conforme me possuía. Aquele choque me levou a gritar e gemer. Parecia-me impossível sentir tanto prazer, mas não era. Era bom, muito bom. Ele se aproximou do meu rosto e começou a sussurrar frases sacanas, enquanto mordia de leve o meu pescoço. Quando estava quase gozando novamente, ele me virou de frente e colocou as minhas pernas nos seus ombros, voltando a me penetrar, dessa vez com muita intensidade, até que o seu gemido rouco de prazer invadiu o quarto. Eu já estava entregue aquele momento, exausta após ter todos os meus anseios e desejos saciados. Ele tirou o tecido que cobria a minha visão e pude olhar dentro dos seus olhos. O que mais gostava nele era o seu olhar. Era profundo, forte e, apesar de tudo, doce. Eram olhos gentis, aconchegantes. Gostava de me perder neles. Davam uma sensação de paz, por mais que o seu dono por vezes clamasse pelo caos...



M.C